O IPCA de maio fechou em 0,28%, segundo dados divulgados nesta terça-feira pelo IBGE. O número ficou abaixo da mediana das projeções do mercado, que apontava para 0,34%. Na comparação anual, a inflação acumulada chegou a 4,1% — ainda dentro da banda superior da meta, mas em trajetória de queda pelo terceiro mês consecutivo.
O resultado animou parte dos analistas, mas economistas mais cautelosos pedem que não se confunda tendência com consolidação. "Três meses de queda são um sinal positivo, não uma vitória", disse ao TrueBR a economista Patrícia Leal, do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas.
Alimentos seguem pressionados
O grupo de alimentação no domicílio subiu 0,61% em maio, puxado principalmente por carnes bovinas (1,8%) e hortaliças (2,3%). A estiagem em regiões produtoras do Centro-Oeste contribuiu para a alta nos vegetais, enquanto a demanda externa aquecida mantém o preço da proteína animal elevado no mercado interno.
Para famílias de baixa renda, que destinam proporção maior da renda ao consumo de alimentos, o impacto é desproporcionalmente maior do que o índice geral sugere. Pesquisa da FGV divulgada na semana passada mostrou que a inflação sentida pelo décimo mais pobre da população foi de 5,7% nos últimos 12 meses — quase 40% acima do IPCA oficial.
Perspectivas para o segundo semestre
O Banco Central manteve a taxa Selic em 10,75% na última reunião do Copom e sinalizou que a próxima decisão dependerá da evolução do cenário externo e dos dados de atividade econômica. O mercado de trabalho aquecido — com taxa de desemprego em 6,2%, a menor desde 2014 — é visto com ambiguidade: bom para o consumo, mas potencialmente inflacionário.
Marcos Tavares acompanha o setor econômico desde 2015 e já cobriu três ciclos completos de aperto monetário no Brasil. Segundo ele, o que diferencia este momento é a combinação de desinflação com mercado de trabalho forte — algo que raramente acontece ao mesmo tempo. "Quando isso ocorre, o Banco Central tende a ser mais paciente. Mas paciência tem limite."