A Lei de Acesso à Informação (LAI) completou 14 anos em maio, mas o caminho entre o direito formal de solicitar dados públicos e a obtenção efetiva de informações utilizáveis continua cheio de obstáculos. Para jornalistas, pesquisadores e cidadãos que dependem de dados governamentais para verificar afirmações públicas, entender o estado atual dos portais de transparência é condição básica de trabalho — e, muitas vezes, de frustração.

Esta reportagem apresenta um panorama atualizado do ecossistema de transparência pública brasileiro, com base em levantamento realizado pelo True Brasil entre março e maio de 2026. Analisamos 27 portais federais, 26 portais estaduais e as 27 capitais brasileiras, avaliando disponibilidade de dados, formatos de publicação, prazos de resposta a pedidos via LAI e conformidade com a Lei de Dados Abertos (Lei 12.527/2011).

O que a LAI garante — e onde falha na prática

A LAI estabelece que qualquer pessoa pode solicitar informações a órgãos e entidades públicas, sem necessidade de justificar o pedido. Os prazos legais são de 20 dias, prorrogáveis por mais 10. Na prática, nosso monitoramento identificou que 34% dos pedidos de teste enviados a órgãos federais em 2026 receberam resposta fora do prazo, e 12% foram negados com fundamentação considerada insuficiente pelo Ministério Público Federal em auditorias recentes.

Os motivos mais frequentes de negativa incluem classificação indevida de informação como sigilosa, alegação de "dados em processamento" sem previsão de entrega e remessa do pedido entre setores sem resposta consolidada. Em três casos testados, o mesmo pedido enviado por e-mail e pelo sistema Fala.BR recebeu tratamentos diferentes — um respondido em 15 dias, outro arquivado sem retorno.

Portais federais: avanços e gargalos

No âmbito federal, destacam-se positivamente o Portal da Transparência do Governo Federal, o Portal de Dados Abertos (dados.gov.br) e os painéis do Tesouro Nacional. Esses sistemas permitem consultar despesas, receitas, contratos e transferências com granularidade razoável, embora a navegabilidade ainda desafie usuários sem formação técnica.

Problemas recorrentes incluem:

  • Dados publicados em PDF sem possibilidade de extração automatizada
  • Planilhas com formatos inconsistentes entre meses e anos
  • Links quebrados em páginas de ministérios após reformulações de sites
  • Ausência de metadados descritivos que expliquem o significado de cada campo

Em abril, o True Brasil documentou que o portal de um ministério exibia contratos de 2023 com valores zerados por erro de migração de banco de dados — informação que permaneceu incorreta por 19 dias após nossa notificação formal via LAI.

Estados: desigualdade estrutural

A qualidade dos portais estaduais varia drasticamente. São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul mantêm plataformas relativamente completas, com APIs e conjuntos de dados atualizados mensalmente. Em contraste, cinco estados analisados não possuíam seção dedicada a dados abertos em formato estruturado, limitando-se a publicar relatórios em PDF no site da controladoria.

A transparência não pode depender do CEP do cidadão que solicita a informação. Dados públicos devem ser públicos por padrão, não por exceção.

Para verificadores de fatos, essa desigualdade tem consequência direta: afirmações sobre gastos estaduais em um estado podem ser checáveis em horas, enquanto no vizinho exigem semanas de tramitação via LAI — ou permanecem impossíveis de confirmar.

Municípios: o elo mais fraco

As 27 capitais brasileiras apresentaram o cenário mais heterogêneo. Curitiba, Belo Horizonte e Recife possuem portais de dados abertos com conjuntos relevantes para fiscalização orçamentária. Outras capitais, incluindo duas da região Norte, não respondem a pedidos de LAI há mais de seis meses, segundo dados da CGU compilados em maio de 2026.

A publicação de emendas parlamentares em nível municipal — tema frequente em conteúdos virais de desinformação — é particularmente deficiente: apenas 11 das 27 capitais disponibilizam esses dados de forma pesquisável e atualizada.

Ferramentas para o cidadão verificador

Independentemente das falhas estruturais, existem recursos que facilitam o acesso:

  1. Fala.BR: plataforma oficial para pedidos de informação e reclamações
  2. Portal da Transparência: consulta de gastos federais por órgão, favorecido e programa
  3. dados.gov.br: catálogo nacional de conjuntos de dados abertos
  4. Brasil.IO e bases de ONGs: agregadores que normalizam dados públicos para análise

Recomendamos que verificadores documentem cada consulta — capturas de tela com data, links permanentes quando disponíveis e registro do pedido LAI com número de protocolo. Essa documentação é essencial tanto para reportagens quanto para eventuais recursos administrativos.

Perspectivas

Projetos de lei em tramitação no Congresso buscam fortalecer a LAI com sanções mais claras para descumprimento e padronização de formatos de dados. Enquanto isso não se concretiza, o trabalho de verificação depende da persistência de jornalistas, organizações da sociedade civil e cidadãos que se recusam a aceitar "não temos esse dado" como resposta final.

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